quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Rotura uterina

Dando seqüência à aula de horrores sanguinolentos e catastróficos na Obstetrícia, temos, por fim, a rotura uterina – outra razão para hemorragia vaginal na gravidez. Pode aparecer nas seguintes circunstâncias:

Parto obstruído – por exemplo, na desproporção céfalo-pélvica (DCP). O útero trabalha com contrações fortíssimas; apesar da moldagem craniana, não há progressão. Gradualmente a região do segmento inferior se afina e distende, elevando-se em direção à cicatriz umbilical. Parece-se muito com um bexigoma; mas, na verdade, chama-se anel de contração, ou anel de Bandl; este simplesmente indica iminência de rotura uterina. Uma sondagem de alívio descarta o bexigoma. Nessa hora, corra para preparar a sala cirúrgica!

Em geral, nessas circunstâncias, o comportamento da paciente é agitado, aflito, e seus gritos podem ser confundidos com peripaque, para a equipe insensível. Na verdade, a sensação dolorosa é imensa. Se persistir sem atenção, a coisa evolui. De repente, ela se acalma abruptamente – o útero acaba de se romper, e ela rapidamente entra em choque por hemorragia interna (lembrem-se de que justamente na região do segmento inferior inserem-se as artérias uterinas; se o útero se rompe no local, lá se vai o útero e a circulação placentária). O feto exterioriza-se para a cavidade peritoneal e morre.

A rotura uterina é sinal evidente de parto mal assistido. Se você presta atenção à dinâmica uterina, à evolução da dilatação cervical, à presença de moldagem craniana fetal ou bossa e ao comportamento materno, muito antes da rotura ocorrer já se pode diagnosticar parto obstruído e partir para a via alta (cesárea). Aliás, a rotura uterina tem aparecido com relativa freqüência nos serviços que usam peridural + cesárea anterior + indução/condução ocitócica – combinação explosiva! Quem prestará atenção, se a própria paciente não sente nada, e, com o Pré-parto silencioso, se pode ficar distraído conversando no balcão? Aliás, sempre fiquem mais atentos quando houver o uso de ocitocina em cesárea anterior; o útero é mais frágil.

Por último, há casos em que a rotura uterina aparece ainda na gestação, antes mesmo de desencadeado o trabalho de parto. Isto pode ocorrer nas pacientes que, numa gestação anterior, foram submetidas à terrível cesárea corporal – o útero foi cortado no sentido longitudinal, ao invés de transversalmente na região do segmento inferior, e assim estragou-se para sempre a belíssima arquitetura das fibras uterinas.

Dêem uma espiada nos livros, para completar seu conhecimento e ver as figuras impressionantes. A própria tragédia evitável!...

Um abração.

Maria Clara

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